Desde que me mudei para o apartamento, meus
vizinhos me causam incômodo. Não porque sejam festeiros, ainda bem, mas pela
falta de educação financeira. Todos estão animados para “investir” nos seus
apartamentos. Menos eu. Meu problema é “Quanto se gasta com um imóvel e o que
realmente lucramos quando, e se, o vendemos 10 anos depois”.
A sabedoria popular diz que esse é um dos
melhores investimentos que o indivíduo pode fazer na vida. Uma verdade do ponto
de vista do conforto e tranquilidade. Proprietários dormem melhor que
inquilinos. Mas, pelo lado financeiro, furada sem tamanho. Veremos com algumas
continhas desagradáveis.
Supondo que eu comprei uma casa enorme, no
ano 2000, por 200 mil reais. E a vendi em 2010 por 700 mil reais. Belo lucro,
dirá a sabedoria popular, dá pra comprar 3 casas iguais àquela e ainda sobra
algum!... Eu já disse que a sabedoria popular não sabe bosta nenhuma. Vou dar
mais alguns números:
+ Inflação de 6% ao ano.
+ Benfeitorias no imóvel por ano: 5 mil reais
(inclui armários embutidos, pisos, iluminação, pintura, mobiliário e trecos
cotidianos). Parti do princípio que essas melhorias aconteceram ao longo dos 10
anos em que morei na casa. Primeiro a marcenaria, pisos, depois cortinas e
outras groselhas. E por fim, a típica pintura antes de vender o imóvel.
Imaginei 50 mil reais ao longo do tempo, e a média seria os 5 mil citados.
+ Gastos com o imóvel por ano: 4,8 mil reais
(inclui impostos, segurança, jardineiro, manutenção, etc). Usei o mesmo
princípio das benfeitorias , exceto que estes gastos não são opcionais.
Vou explicar como eu chegarei num número
monstruoso. A conta foi montada assim: Os gastos mensais, de 9,8 mil reais no
primeiro ano, foram corrigidos pela inflação. Portanto, no último ano, eu teria
gasto 16.556,89 reais com o imóvel.
Inflacionei então os 200 mil do imóvel somados
aos valores anuais corrigidos dos gastos. Por 10 anos. E cheguei aos tremendos
523.738,47 reais. Esse é o valor quanto gastei com a casa própria. Se a vendi
por 700 mil, não tive um lucro de 500 mil reais, mas sim de 176.261, 53 reais.
Só! Nota-se a diferença entre “lucro psicológico” e o verdadeiro lucro
financeiro.
Veja que a inflação e os supostos “investimentos”
no imóvel são, na realidade, um buraco negro de dinheiro. Além dos 200 mil,
tirei do meu bolso outros 323.738,47 com o imóvel. Culpa dos impostos, das
malditas luminárias e dos armários sob medida que hoje estão fora de moda e meio
banguelas. Exagero meu? Claro que não. Uma luminária de 50 reais em 2000, graças
a inflação, tornou-se uma tranqueira de 84,47 reais.
Séria punhalada financeira. Vou agora dar 2
exemplos do porquê o sonho da casa própria é uma furada. First, a depreciação.
Lembra da luminária de 84 reais? Ela seria vendida no Mercado Livre por 10
reais, no máximo. Por isso estão vendendo aquela casa recém construída por 1
milhão de reais. Enquanto a minha foi vendida por 700 mil, já com armários banguelas
e luminárias do Mercado Livre.
Segundo. Ao invés de “investir” 200 paus na casa, se eu tivesse comprado
títulos do tesouro pré-fixados que pagassem inflação mais 4% ao ano... menos
15% de IR... eu teria líquidos 400.851,10 reais. Bem melhor que os 176.261, 53
reais da minha grande sacada imobiliária.
Portanto, não fique chocado quando entrar na
minha casa. As lâmpadas ficarão pendentes do teto por um bom tempo. Não tenho
paciência de procurar luminárias depreciadas no Mercado Livre. E não estou nem
um pouco animado com marcenaria ou box de vidro temperado. O preço destas
coisas está um absurdo (daqui a dez anos).