Este artigo foi publicado na Modern Drunkard, e traduzi (mutatis mutandis, of course) pois o considero fundamental para a cultura etílica do cidadão do século XXI.
- E aí? Que fez na noite passada?
- Bebi todas.
- Onde?
- Lugar nenhum... bebi em casa mesmo.
- Fez uma festa e nem me convidou? Quem apareceu?
- Ninguém. Bebi sozinho.
- Sério? Qual o problema? Quer desabafar alguma coisa?
Sim, eu quero falar sobre isso. Não sobre o engano de meu interlocutor sobre os motivos obscuros que me levariam a beber sozinho, mas sim sobre o próprio ato de beber sozinho.
Por alguma razão inexplicável, as pessoas têm a idéia de que beber solitariamente é um sinal claro que o bebum está prestes a cair num penhasco profundo e sinistro, como o
suicídio, a mendicância ou um emprego fixo numa revista sobre bebidas.
Superficialmente, faz sentido. O álcool sempre foi um ótimo lubrificante social, pois solta as amarras e constrói amizades. Tem o poder único e beatífico de criar riso e desfazer diferenças, um poder que não está ao alcance dos abstêmios. Bebendo, estranhos tornam-se amigos, amigos tornam-se íntimos, e a festa termina em porres coletivos e alegria geral. Pelo copo reforça-se a corrente que liga você a muitos amigos e conhecidos. Álcool, e não coleções de selos, quem faz o grupo permanecer unido.
Bebendo sozinho, por outro lado, é a forma pura e direta de injetar álcool na corrente sanguínea. Este ato elimina certas hipocrisias e pretensões de usar o álcool como uma ferramenta social . Se beber facilita conhecer outras pessoas, o bebedor pode usar o mesmo poder para se investigar. Resumo a bebericagem solitária: promover o autoconhecimento, decifrar o subconsciente, a loucura recôndita, os desejos e fúrias, o “quem sou eu de verdade”.
Agora, existem aqueles que abominam a idéia de passar um momento de solidão enfrentando a própria mente. Coloque-os em um quarto silencioso por cinco minutos e logo estarão ao celular ou vendo TV. Mark Twain gostava de dizer que “no fundo do coração, ninguém tem muito respeito por si mesmo”... e ele continua exato. Por que essas pessoas deveriam encontrar suas verdadeiras identidades? Esta coisa, para todos os propósitos e intenções, é um estranho, e pior... um estranho que conhece os mais escuros e profundos, os mais terríveis segredos. Melhor evitar esse encontro.
Por isso, ironicamente, você deve conhecer a criatura. Cedo ou tarde este desgraçado vai ser você. E quanto mais preso e ignorado, mais bizarro ele se tornará, e poderá se manifestar num colpaso nervoso ou comportamento autodestrutivo. Desprezar a própria mente causará conseqüências imprevisíveis. Melhor encontrá-la antes que ela ataque.
É aí que entra a velha companheira Manguaça. Você já sabe do álcool como supremo diplomata. O charmoso moderador entre estranhos e desconhecidos. Mas você sabia que ele é igualmente apto para lhe apresentar ao animal que rosna em sua alma? No fundo da garrafa está a chave que liberta a fera. Ao invés de soltar o animal em público, onde ele será perseguido (ou como talvez relatem na manhã seguinte), deixe-o livre num ambiente calmo. É quase certo que você gostará do bicho. E ele de você.
Na Vastidão do Espaço Solitário
“E então fiquei deitado e bebendo. Quando você bebe, o mundo continua lá fora, mas naquele momento ele não te torce o pescoço.” Charles Bukowski
Assim como é impossível escrever algo enquanto alguém te observa pelas costas, também é bastante difícil cumprimentar a mente subconsciente enquanto se bebe na companhia dos outros. Uma pena, pois a mente auto consciente, muito mais lúcida e sábia, quem deveria falar quando você se está turbinado.
Prepare um lugar sossegado. Baixe as luzes e desligue o telefone. E, pelo-amor-de-deus, desligue a porra da televisão. Esta caixa sombria é a antítese da meditação, como um idiota tagarela que nunca se cala ou ouve, mas parece especialmente projetado para roubar sua atenção e dirigi-la para as próprias babaquices fúteis. Desligue, ou melhor ainda, jogue a televisão na rua!
Mesa e cadeira são, na minha opinião, as melhores ferramentas para beber sozinho. Alguma mística do copo e da garrafa bem a sua frente, prontos pra entrar em ação, que me lembram Bogart em Casablanca. Exceto que você não terá Sam ao piano, teclando suas canções prediletas. Mas isso não quer dizer que na se deve ter música.
A Trilha Sonora do Isolamento
“A melhor coisa que a minha música preferida é a minha música preferida com um copo de scotch”. Jackie Gleason
Apesar de você escolher metal, rap, punk ou, blerg!, pagode quando sai para a farra com amigos, ao beber sozinho, você não deve ficar animado com o som, mas sim submergir nos trabalhos invisíveis da birita e da consciência. Músicas calmas e melódicas, certamente nostálgicas, são as melhores escolhas. John Lee Hooker, Tom Waits, Ella Fitzgerald ou Kraftwerk funcionam bem para mim. Mas você saberá montar a trilha sonora para o humor contemplativo. Faça a seleção e deixe ao fundo.
Escolha o Moderador
“Deixo que meu copo fale por mim”. Humphrey Bogart
Whiskey fará lembrar suas origens. Tequila evocará as aventuras que foi covarde para fazer, ou corajoso além da sensatez. Vodca pode dar idéias novas. E cerveja pode libertar macacos que julgava presos desde o tempo da faculdade. Escolha a bebida mais apta a sua personalidade. Eu prefiro drinks clássicos ou pura cachaça. Mas, acima de tudo, não enfrente as 20.000 léguas etílicas com adega frágil. Vai ser triste começar a amizade com sua mente obscura, e a “maldita pinga” acabar antes de completar a viagem. Mantenha o estoque cheio.
Agora que já tem um moderador, é hora de assaltar a mente, certo? Não, calma... Antes de ficar íntimo do seu íntimo, fique amigo da bebida.
Reconhecendo o Recipiente
“Martinis bem feitos, corretamente gelados e gentilmente servidos, sempre foram meus melhores amigos, mais amigos do que qualquer criatura de duas pernas”. M.F.K. Fisher
Após 3 ou 4 doses, ficarão claras as vantagens de se beber sozinho, a saber:
- Você é o dono do bar. Sozinho, bebe-se exatamente a quantidade que se quer beber. Admita: bebendo em público acaba-se bebendo algo que não se está de acordo com as preferências pessoais. A marca do vinho, as regras sociais para se adequar, as reputações a zelar, os estranhos para impressionar. A boca pede mais uma cerveja enquanto a alma clama por um Mojito.
- Você controla o ritmo. Mais um copo? Manda! Não bebeu tudo de uma vez só? Sem problemas... não existe fila. Quer outro drink de mulherzinha? É pra já!... Não haverá nenhum amigo fazendo piadas por que você bebeu pouco. A garrafa jamais causará conflitos às suas vontades. Ela nunca dirá “não”, apenas sim, sim, sim.
- Bebe-se com gosto. Leia um bom livro num quarto vazio e você absorverá cada frase construída. Leia o mesmo livro num tumulto e a beleza escoará pelo ralo. Nada restará do livro em sua memória. A mesma coisa vale para o álcool. Não haverá distrações para tirar sua atenção do sabor amadeirado de um digno Cognac. Notará os vários aromas e sabores picantes do Rum. Perceberá profundidades e estranhas lembranças naquela cerveja que já bebeu mil vezes. Mostre-me alguém que bebe sozinho, sem qualquer desejo de atenção ou companhia, e eu te mostrarei um verdadeiro apreciador do álcool.
- Garrafas não falam. Um dos grandes prazeres da vida é o confortável silêncio entre dois amigos. Você sabe do que estou falando. Com um velho amigo, bebe-se litros de cana numa antiga mesa de bar, mas nenhum dos dois sente a menor necessidade de entabular conversas fiadas. Há um sutil entendimento de que nada precisa ser dito. O silêncio demonstra a grande amizade. Enfim, bebe-se com um amigo...
Estes momentos, infelizmente, andam cada vez mais raros. Vivemos numa época em que o silêncio pode nos tornar maçantes, e a outra pessoa começará a buscar pessoas mais “divertidas” para uma conversa inútil, desde que faça passar o tempo. E este medo é tão visceral que todos sentem que devem falar sobre tudo, a todo instante. Lembro-me de ter passado longas noites com muito álcool e muita gente, e ninguém ter dito nada de relevante. Nenhum pensamento valioso ou notável. Ou mesmo qualquer pensamento.
Quando você tagarela para conhecidos e conhecidos tagarelam para você, seu subconsciente fica lá sentado e nada acrescenta. Perda de tempo, concorda?
Mas, sozinho e bebendo, você será premiado com uma vasta e ensolarada praia de silêncio. A garrafa não te contará fofocas bestas ou sobre o novo home theater que ela pretende financiar. Ela fica ali, em silêncio monástico, enchendo seu copo ao invés de seu ouvido.
- Seja o bobo. A bebida não vai te condenar por desprezar valores que são “sérios”. Ou por bancar o pistoleiro num filme de faroeste que julgava esquecido. Ela saudará quietamente. Você pode se tornar um histrião, ficar dramático e sentimental, ou rir sem motivos. Ninguém estará lá pra te lembrar das convenções sociais ou de comportamentos padronizados. A garrafa sempre foi bastante confiável.
Encontre a fera
“Você nunca saberá bosta nenhuma de um homem até ficar completamente bêbado com ele” . Charles Russell
Após cinco ou seis doses, o tigre começará a ficar agitado na jaula. Não se assuste: é hora de soltá-lo.
Observe seus olhos. São os mesmos olhos quando fica-se apaixonado por garotas que conheceu a dez minutos atrás. Ele lhe dirá coisas insólitas e completamente racionais. Vai ser difícil achar um argumento que destrua o que ele diz. Melhor desistir. E o animal está tão otimista. Por mais improvável que seja algum evento, ele o abraçará sem ceticismo. Se surgirem dezenas de aventuras, ele tentará todas, não se importando com os erros. Também possui coração mole, apesar da aparência feroz.
E não é um cara tão malvado como diziam... Esse povo que fala sobre o que não conhece! Ofereça uma dose para ele. Assim como você, ele também gosta de beber, afinal... ele é você.
Agora já dá reconhecer e categorizar esse espécime. É sua personalidade sem as amarras sociais. Um tímido que perdeu o medo de ser julgado negativamente. Um escravo liberto. Enfim, você conheceu a própria mente, e não o que parentes, amigos, chefes e todos os diabos deste mundo impõem como comportamento.
Após mais algumas doses, vocês estarão completamente integrados por uma calorosa amizade. Por que demorei tanto tempo pra conhecer esse cara? Talvez porque esteja bebendo com pessoas demais, eu lhe responderia.
Lembre-se que esse cara estava em todos os seus tombos. Em cada segundo da sua vida. Ele agüentou todas as marés baixas e desistências. Lá estava ele na mais baixa depressão e nos mais altos méritos. Em todo momento que você achou que alguém estaria olhando, esse alguém é o seu eu interno... e você só o encontrou agora, após uma longa bebedeira solitária.
Tome mais algumas, e mergulhe na nostalgia. Esse cara estava junto de algumas de suas trapalhadas. Também estava quando tudo deu certo. Ria com ele. Afinal, é o melhor amigo que você conhecerá. Que farão no futuro, agora que um não teme mais o outro?
Enquanto você mergulha mais fundo na garrafa, e no auto-conhecimento, começará a sentir uma estranha sensação de completude. Um nirvana etílico. A superfície é a profundidade. O sou, serei e fui ao mesmo tempo, diz a fera. Os limites se encontram e tudo se mescla. Como ninguém está vendo, pode assumir a postura da flor de lótus e dar uma de Dalai Lama. O eu social e aquela criatura incompreensível vão aprender a gostar uma da outra. E este é o ponto, o ponto onde nenhum amigo real ou terapeuta babaca jamais chegarão.
Antes que a jornada interna acabe, tenha certeza do que exatamente acabou de realizar. Olhe-se no espelho e reconheça esse novo poder. Construiu vínculos e se aliou com a única pessoa deste planeta que ficará junto de ti caso se foda, ou seus sonhos sejam realizados: você mesmo.
Na manhã seguinte não se lembrará muito desta aventura, mas tudo bem... O subconsciente nunca esquece. Um estranho que genuinamente gosta de você é um poderoso aliado, pois ele surge quando menos se espera.
Na próxima vez que sair pra beber com amigos, olhe bem para a bebida, seu espelho secreto, e pense: “e aí, velho amigo, lembra-se dos nossos dias sossegados? Dos pensamentos que partilhamos? Nos encontraremos pela noite... Apenas você, eu, e muitas geladas”.