Que porra é essa?!?

Explico. Cthutlhu é uma criatura fictícia. Um ateu (sempre eles) chamado H. P. Lovecraft criou-a no conto "The Call of Cthulhu". Versa sobre um ser do mal, com poderes sobrenaturais, capaz de viajar no tempo-espaço. E com apetite por humanos. Cthulhu parece um humanóide, mas é enorme, verde e escamoso. Uma cabeçona com muitos tentáculos na mandíbula e asas de morcego nas costas. O protagonista borra nas calças quando vê Cthulhu. Então, numa noite insone, matutei:

"Oras, por acaso não seria Cthulhu um humano do futuro distante? Após milhares de anos de evolução, a barba pode virar tentáculos. Aumento da inteligência = puta cabeça grande. Se aparecermos assim para um humano atual, é claro que este ficará petrificado. E quanto a comer humanos? Hoje comemos vacas (até que se prove o contrário, vacas são nossos parentes). Muitas criaturas comem parentes obsoletos ou distantes. Enfim, existe a possibilidade, embora quase nenhuma probabilidade."

Passei a pensar em outros absurdos naquela noite. Mas uma linha evolutiva a partir do macaco, passando por Darwin (um dos meus heróis) até Cthulhu, grudou em minha imaginação.



Este é um blog sobre essa e outras idéias que assolam minha mente. Sobre a "vida", a bolsa de valores, filmes, livros, etc. Principalmente “etc”. Também vou tirar sarro daquelas criaturas que ainda estão entre o macaco e Darwin. (E sim, a imagem acima foi desenhada toscamente por mim)

domingo, 25 de março de 2012

Time To Dance

Certo crítico de arte (acho que foi o Panofsky, estou com preguiça de investigar) disse que a crítica não deveria nunca criticar de prima... mas sim funcionar antes como uma pedagogia. Ensine o que você vê de importante nesta obra para que outros possam ver também, aí depois desça a lenha ou eleve aos céus. E devido ao meu elogio a este clip, muitos se assustaram. “Como assim é o melhor clip? O cara é um assassino! Você é doente!” 

Defender-me-ei, e educarei, nos próximos parágrafos.

O clip começa em distorções e polirritmia. Tipo musiquinhas pseudo-moderninhas, ouve-se um repetitivo e gritado “blurred vision”. Há borrões nas caras do casalzinho junkie, enquanto isso não vemos o herói da história (que usa óculos e está sentado e não muito animado com a dançinha palha do casal). A decoração da sala ajuda no desfecho desta cena, onde dois quadros mostram personagens apontando armas para o espectador. Are you talking to me? (tira-gosto de taxista).

O personagem principal sai da sala, e volta fantasiado de esgrimista. Não deve ser muito claro o que se vê de dentro da famosa peneira que o esporte usa no rosto, então ouvimos um inútil “put down that ammo” ao fundo. Touché nos dançarinos molengas. O casalzinho morre. A moça degolada e o cara com provável traumatismo craniano após ser massacrado contra um espelho enquanto a distorção canta um “free me from this world”. Continue prestando atenção aos espelhos e aos detalhes...

Acho que nunca passará nas tardes da MTV, infelizmente. Antes de deixar a cena do crime, surge a face do míope serial killer (sim, ele tem rosto e ele entrou no clima de matar babacas ao léu) cutucando um Woodstock de plástico. Detalhezinho bobo? Não... Eis aí a clavis interpretandi de toda a produção. Woodstock, alem do evento, também é aquele passarinho amarelo, o melhor amigo do Snoopy. Se o original só fala por códigos e exclamações ininteligíveis, nosso personagem clipesco interage mediante violência e assassinato. Nunca saberemos o que ele quer. Se só o Snoopy entende o pequeno pássaro (será que entende mesmo?) como saber por que o cara matou o casalzinho? Talvez no final...

Começa a música propriamente dita. Uma bandeira brazuca dá voas vindas numa academia deserta. Se você é um serial killer na ativa, cardio e músculos devem estar em dia. Então seguem-se estes fatos. Balada com um cidadão muito parecido com o Woodstock original. Comprar algo enquanto a câmara o enquadra entre letreiros, e a música soletra TIMETODANCE. O serial não fala, só mata. No varejo. Ele pertence há outro mundo, e veio coletar corpos. Entra em festas a fantasia como esgrimista. Oferece seu próprio pescoço à lâmina afiada de um barbeiro inocente (onde a música entra em seu ritmo quase total).

Esse é o ponto em que ninguém captou. A estrutura-se tem três partes claras com imagens perfeitamente sincronizadas. A primeira, e mais curta, atende pelas dissonâncias e garatujas sonoras do casal junkie. Após, música tema, organizada no arquiconhecido crescendo. A rápida imagem de uma faca ( perfurando uma vítima, claro) e a neve sendo sapecada por sangue contrapõe a espuma de barbear sendo cirurgicamente removida pela navalha. Ali não há sangue, pois o barbeiro é bom e “bom”. Flashbacks de outros crimes surgem. Um longo “pimmm” termina esta segunda parte da música. Gelo. Brancura. Pós-barba. Esgrimista. Assepsia. Pimmm!

And now it´s time to dance! Entramos no gran finale deste singelo mas bem amarrado clip. Mais mortes, com e sem barba. Estrangulamento. Esfaqueamento. Martelo de ponta.  I’ll buy you time for you to run. O assassino seguirá seu caminho entrando em mais uma casa noturna. E então parece o casal “ideal”: dois negões dançando alucinadamente ao som da música tema já em forte quase fortissimo. Mas eles não estão em festinhas sociais. São outsiders. Dançam isoladamente em mundos próprios e solitários. Aquelas figuras estão completas. Excêntricos atraídos pela música e não babaquinhas chapados em baladinhas hipsters “que você tem que ir”.

E começa a minha viagem sobre o clip... Por que gastamos tanto fosfato com sons ritmados e supostamente organizados? Onde é que nossos cérebros falhos entram em perfeita sincronia devido a batuquices e frases que rimam? Por que dançar? Sem música, o que seria de Elvis? O que seria da música sem Elvis? O que seria de mim sem Elvis e sem música? Um assassino, creio...

Nem eu nem o clipe respondem aos mistérios. Vemos o psicopata entrando no som. Primeiro ele faz os movimentos de stabbing (como que apunhalando) perseguindo as batidas. Depois solta a cervical diante do ritmo. Climax. And now it´s time to dance. As últimas cenas são da mocinha em transe e o serial killer ao fundo, ensaiando seus passos titubeantes. Fim. Surge a figura assassina num cenário branquinho, com pássaros brancos, contemplando o nada em silêncio.

Matou esses últimos doidos absortos em êxtase musical? Talvez. Dançou e não matou ninguém? Talvez. Posso não saber o fim do enredo, mas sei a moral da história. Ouça a música. Ouça de verdade. Já dizia titia Etta James: i´d rather go blind.