Por que é desumano enterrar um cachorro vivo? Desumanas não seriam as práticas que prejudicam ou desestabilizam a raça humana? Enterrar cachorros, portanto, seriam práticas anti-caninas, ou zoófobas (pra ser mais abrangente). Para o cachorro é uma excelente elevação de status quando alguém humano lhe dá uma fodida, e essa fodida recebe a alcunha de “desumana”.
Estranho isto... Se há mais gente defendendo os animais, eu não me espantaria de que mais gente está comendo mais atum.
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Temos uma visão exageradamente antropocêntrica. Somos os melhores e os mais inteligentes, somos a perfeição ambulante da natureza, somos os filhinhos preferidos de Deus. Mas a realidade cotidiana e as ciências insistem em dizer o contrário.
Mas podemos negar esses avisos desagradáveis. A primeira medida é se manter ignorante, o que é fácil. Assista televisão, freqüente uma igreja qualquer e nutra idéias de que temos objetivos e valor neste mundo.
Para o cotidiano e suas alegações que somos desprezíveis, as atitudes de negação tornam-se um pouco mais elaboradas: é preciso agarrar-se à moral, à família, a ideias políticos e ecológicos, e arranjar um animal de estimação.
Continuamos como um lixo orgânico cuja brevidade é conhecida. Mas com um animal de estimação temos a confirmação fofinha de nossa superioridade. Eles não são tão melhores e inteligentes, nem perfeitos... apenas os caçulinhas de Deus, dependente dos poderosíssimos humanos. Não à-toa dizem que um bicho combate a depressão.
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Tendência para acumular animais de estimação revelam uma mentalidade de animal de estimação?
Sim! Claro que essa especulação é bem estilingada (super método indutivo, onde se parte de migalhas de informação para uma enorme confeitaria teórica)
Traços comuns da supervalorização dos animais domesticáveis: solidão, baixa estima, tendência a se sentir vítimas da sociedade, emotividade, ansiedade e pouca racionalização.
Assim, o ditado do cachorro parecido com o dono adquire uma dimensão insuspeitada. E não tente argumentar contra os animais com essas pessoas: elas não são racionais.
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Voltando ao hábito de enterrar cachorros. O que é mais cruel?
a) Deixar um cachorro que foi enterrado mais meia hora lá embaixo, e talvez deixá-lo pra sempre, uma vez que o cadáver poderá trazer problemas sanitários para o entorno; ou
b) Desenterrar o cachorro, bradar pelos ares “coitadinho!” e apresentá-lo a uma continuação dolorosa da nesga de vida que ainda lhe resta com o propósito claro de fazer uma boa ação.
Usando palavreado do mercado financeiro, qual o break even da pet cruelty? Por acaso estamos prorrogando irracionalmente o sacrifício quando o veterinário dá a palavra final?
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Das milhares de coisas que podemos fazer para tornar o mundo melhor, salvar animais domesticados me parece a medida mais reacionária, consumista e TFP.
Há um colante popular em carros. “Eu freio para animais”. Essa mensagem deixa claro que a pessoa salvará um cachorro que não sabe atravessar a rua, freando bruscamente numa via pública. Se o automóvel de atrás é uma perua escolar, c´est la vie. Ou talvez o pedestre atropelado não entenda a “boa ação” do motorista.
Por incrível que pareça, a pessoa que freia para animais será vista como um cidadão consciente e responsável...
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O estranho dom da consciência cria hábitos bastante irracionais. Lembram-se da bola de vôlei Wilson, e seu dono isolado numa ilha? Sabe-se lá por quê, acabamos projetando personalidade em objetos inanimados.
Assim, a internet tem dias bons, o carro me entende, o chinelo direito sempre some, etc.
Se projetamos almas em objetos, imagine em animais de estimação. Totó fica ao meu lado quando estou doente, ele sabe quando vai passear, ou eu vou viajar... Mas essas são frases até normais.
Entra-se em pirações quando se manda o cachorro fazer acupuntura. Quando se tem certeza que o bicho “sabe” o nome dele. Ou a pessoa viaja e pede pra falar com o gato pelo telefone. Acorda!!!
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Só existe um problema quando temos consciência de sua existência. Se o cano vaza dentro da parede, mas eu não vejo qualquer sinal de umidade, então nenhum cano vaza. É óbvio.
Outro dia, no Facebook (a grande coleção de asneiras humanas), surgiu um anúncio bastante comovente. “Família carente salva Dog Alemão”.
Prontamente surgiu um bemfeitor... da família carente? Claro que não! O dog alemão já tem um lar cheio de amor e carinho.Ufa, o mundo realmente precisa destas pessoas bem intencionadas!
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Em 330 anos, uma migalha de tempo, saímos de estados escravocratas para estados defensores de animais. Não estou defendendo a volta da escravidão, claro... Mas se pensarmos um pouco, nota-se o absurdo do comportamento humano. Você podia ter um negrinho, e agora você pode ter um cachorrinho.
Qual será a “propriedade animada” daqui a 500 anos?
(O cachorrinho vai ter você, o meu palpite)
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Nossos antepassados caçavam mamutes. Era um belo pedaço de carne, cuja captura envolvia risco, músculos, coragem e engenhosidade. Os primeiros cães ficavam com os ossos, pois nosso organismo não sabe lidar com eles...
Hoje temos animais de estimação porque eles são divertidos, carinhosos e outra baboseiras. No entanto, várias sociedades não têm animais de estimação simplesmente porque não podem ter. Se não há excedente, não há totós.
Assim, o ônus (tanto material quanto moral) de sustentar animais domesticados cai nas esferas mais altas de renda. Ou naqueles que se sentem mais culpados (atropelei uma criança nos anos 80, agora crio 21 gatos).
Vamos supor que uma guerra sem precedentes destrua boa parte do Ocidente. Onde vale o “olho por olho” os defensores dos animais convenientemente suspendem suas reivindicações. Logo, essa espécie “humana” só existe em sociedades prósperas, pacíficas e irremediavelmente culpadas.
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Bicho não é humano. Aliás, nem humanos são grande coisa... Há um filme excelente para tentar entender a tumultuada relação entre humanos e caninos: White Dog, do mestre Sam Fuller. Não é o tipo de filme que passará na Sessão da Tarde.
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Conclui-se que eu enveneno os cachorros dos vizinhos e dou bicuda em gatos? Não. Longe disto... mas não sou advogado dos bichos. Sou defensor dos humanos. Na Renascença havia o conceito do humanista como aquele que tenta elevar a espécie humana, custe o que custar . Maquiavel era um deles, mas o povo, quando muito, prefere ler o verbete “maquiavélico” do que conhecer as obras do italiano.
Hoje temos essa espécie babaca e carente do “Animalista”, comprando florais de Bach pra poodle desdentado e postando besteiras no Facebook. Se esse tipo de gente acha que está prestando um serviço à sociedade, tenho más notícias. Pode ser bonitinho e politicamente correto, mas o resultado só será bom para os animais, que morrerão sem inventar nada, sem escrever um livro, e sem projetar uma ponte, ou ter plantado uma árvore.
Temos de nos tornar melhores, mais inteligentes, menos destrutivos, mais criativos e mais artísticos. Isso se dá investindo em ciência, artes, engenharia e senso crítico. Tornar-se babá de bicho é um fenômeno reacionário e consumista, cujo resultado social é zero.