Que porra é essa?!?
Explico. Cthutlhu é uma criatura fictícia. Um ateu (sempre eles) chamado H. P. Lovecraft criou-a no conto "The Call of Cthulhu". Versa sobre um ser do mal, com poderes sobrenaturais, capaz de viajar no tempo-espaço. E com apetite por humanos. Cthulhu parece um humanóide, mas é enorme, verde e escamoso. Uma cabeçona com muitos tentáculos na mandíbula e asas de morcego nas costas. O protagonista borra nas calças quando vê Cthulhu. Então, numa noite insone, matutei:
"Oras, por acaso não seria Cthulhu um humano do futuro distante? Após milhares de anos de evolução, a barba pode virar tentáculos. Aumento da inteligência = puta cabeça grande. Se aparecermos assim para um humano atual, é claro que este ficará petrificado. E quanto a comer humanos? Hoje comemos vacas (até que se prove o contrário, vacas são nossos parentes). Muitas criaturas comem parentes obsoletos ou distantes. Enfim, existe a possibilidade, embora quase nenhuma probabilidade."
Passei a pensar em outros absurdos naquela noite. Mas uma linha evolutiva a partir do macaco, passando por Darwin (um dos meus heróis) até Cthulhu, grudou em minha imaginação.
Este é um blog sobre essa e outras idéias que assolam minha mente. Sobre a "vida", a bolsa de valores, filmes, livros, etc. Principalmente “etc”. Também vou tirar sarro daquelas criaturas que ainda estão entre o macaco e Darwin. (E sim, a imagem acima foi desenhada toscamente por mim)
domingo, 18 de novembro de 2012
Guarujá - parte 1 - O Apê
Não adianta. Tudo que você põe lá apodrece, enferruja, pega cupim ou, no mínimo, mofo. Estupidifica-se. O azeite fica rançoso, a tinta que você acabou de por na parede já está gosmenta. É o fim sem princípio. A decadência materializada. Chega-se a testemunhar os fungos crescendo entre os dedos do seu próprio pé.
As cortinas são grossas, como se fosse esperado um apocalipse. Elas tem várias camadas de panos. Às vezes, não se consegue sair por entre elas. Fica-se preso, emanharado, asfixiado, e um pó ancestral cai em você. Dá agonia e certo nojo. Mas a saída facil não é objetivo destas cortinas. Foram projetadas para que se evite a entrada da maresia: o miasma que corrompe a matéria e destrói inteligências.
Tenta-se evitar a falência material colocando lençóis em cima das coisas. E outros panos por cima dos lençóis. Só o sofá tem milhares de tecidos por cima. Porém, isso é só maquiagem psicológica. Pura negação. A maresia está no ar. Você pode respirar. Panos pra que não se veja a podridão que já está por tudo, agindo continuamente, a revelia dos esforços humanos.
E tem gente que acha o ar marinho terapêutico.
Espelhos novos ficam com pontos negros. Aquela madeira incorruptível tem cupins insistentes, incansáveis. Todo o dinheiro colocado como investimento se torna baço, inchado, cirrótico, desfacela-se com umidade e sal. De vez em quando o apartamento fica fechado por um bom tempo. E então, quando você entra, o sapato gruda no chão, tudo está pegajoso. E chega-se a cogitar em alguma doença neurológica em que o todo o universo parece gosmento. Mas não é doença não. O apartamento está todo gosmento de verdade. Daí as pessoas dizem que estão muito felizes por estarem ali, na praia. Por Jupiter!
Então você desiste, se joga numa poltrona pegajosa cheia de panos e decide entrar no humor local. Praia, eba! Abre uma cerveja e alcança uma revista de 20 anos atrás. Lê notícias que nem foram grande coisa na época que a revista foi escrita. Vê anuncios de carros que hoje são sucatas. Que merda tautológica. Levanta-se e pega um livro da estante. E esta "biblioteca" merece um espaço só para ela.
O apartamento já foi alugado para milhares de pessoas. A pessoas alugam uma vez, se arrependem e nunca mais voltam. Naturalmente. Neste processo, acabam largando mais livros na estante de livros. Não é possível saber se pegam outros livros e levam embora (seria uma ajuda) ou se largam livros ruins como contribuição para aquela joça toda. De todo modo, os livros são de péssima qualidade. Best Sellers. Porcarias que fizeram sucesso em alguma década passada. Livros de veterinária. De escritores babacas que elogiam o mar e a vida praiana. Esse tipo de lixo afim com o ambiente. Quando se abre um deles (alguns já estão grudados), um aroma de papel velho, mofo, marisco e cigarro surge do livro. Melhor não ler nada.
E se pensa que é melhor assim, sem ler nada entre livros inúteis, você pode se deitar um pouco. Há uma cama lotada de ácaros, dura e desajeitada como uma mina de amianto . E o momento decisivo chega: que porra vim fazer aqui? Há tanta coisa legal no mundo, mas você veio se enfiar no meio da putrefação, destes panos gosmentos, de best sellers inúteis e ilegíveis, de saleiros com água dentro, de lençóis mofados, de corrupção universal. Que tipo de idiota aluga esse apartamento? Com milhares de praias, pousadas e hóteis, você vai se enfiar sempre na mesma praia, sempre no mesmo apartamento decadente. Não queira saber de quanto é o condomínio! Essa informação só tornará mais dolorosa a sua estada.
O lenitivo definitivo é o mar. A famosa paisagem marítima. E que não é lá grande coisa. A sacada é apertada. Fica entre um vão dos outros prédios. Com esnobice, declaram que aquele apartamento é privilegiado pois os apês que dão visão para o mar completo, o marzão-em-si, são desengonçados. Os quartos ficaram estranhos e os banheiros não arejam. Bom mesmo, de verdade, é o nosso apartamento. Se lá coisas já entram em ruína antecipada, imagino que vida mais desgraçada devem ter esses apartamentos com vista completa para o mar. Devem ser o local perfeito pra cometer suicídio. Ou uma chacina. Sou a favor desta última.
Do apartamento, a paisagem não é horrível. Tem uma ilha hipnótica. Como uma droga alucinógena, o cidadão entra ali e fica olhando, obliterado, aquela composição. Pedras, água, mar, vento, ondas. Nunca coisas tão banais foram tão valorizadas. Conforme o tempo que se passa olhando, não se quer olhar outra coisa. Ignoram-se outras praias. O universo passa a ter apenas esta finalidade. Se você não olhar a ilha, será excomungado da família (por favor! onde é que eu assino?)
Mas até se pode compreender porque aquilo tem seu charme. Você chega e o porteiro faz de tudo pra ser simpático. Você tem um guarda-sol na praia (embora os proprietários sejam fisicamente incapazes de ir até lá). Há esse charme burguês extremamente sedutor para o cidadão comum da classe média babaca. Ele se sente reconfortado, reconhecido e valorizado quando despreza vendedores ambulantes que passam a cada 30 segundos em seu guarda-sol. Se a sociedade não reconhece meu valor, eu pago meu tributo ao mar! Ótimo, vamos nadar até a África, você na frente porque eu não sei o caminho.
Se alguém fizer a conta de quanto dinheiro foi colocado ali, mês a mês, ano a ano, obterá uma soma tragicômica. E foi um dinheiro sem retorno. Ele não renderá juros. Não foi corrigido pela inflação, mas destruído pela maresia e pela estagnação familiar. Z e as três Marias poderiam ter feito um uso muito mais sábio desta grana. Mas não. Enfiaram e enfiam tudo neste apartamento do Guarujá. E elas ainda se consideram superiores, mais espertas e elegantes que a média nacional. Mas isto estará descrito na parte 2.